Excerpt for Duas Peças - Colombina e Seus Amores & Comigo Ninguém Pode by , available in its entirety at Smashwords

Duas Peças

Colombina e Seus Amores

Encontros de sonho e desejo

Comigo Ninguém Pode

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Pedro Moreira Nt

Copyright, 2017 by Pedro Moreira Nt.

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Produzido por Pedro Moreira Nt, através do smashwords

Copyright, 2017 por Pedro Moreira Nt

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Colombina e seus amores: encontros de sonho e desejo

(Em cena está uma rede em formato de teia com cobertas e almofadas. A luz mancha a cena com as cores da Lua)

QUADRO 1 - LUA

(Lua rubra. Colombina apronta-se)

COLOMBINA - É tarde a noite já vem, o Sol manchou a lua neste último instante com sua triste viagem. Partir e estar só. Partir, partir. Adeus amor, adeus manhã, e vai o Sol com sua ardência rubra. Ai Pierrô, pequeno sonho inventado, tão doce e puro. Ai amor ignorante, amor tolo, abandonado. Amor crente. Sou Lua, sou Colombina, a pombinha que dança aos desejos e sonhos de amor. Ai, feito cobra me reviro em asas abandonado, feito lua que espera o amor quente de Arlequim todas as manhãs e nos fins de todos os dias, a rubra luz, o escarlate sonho de Pierrô.

(Ouve-se do mundo de fora um bater de palmas)

ARLEQUIM - Está pronta! Hei, hei, hei Colombina! Hei!

COLOMBINA - Que voz é essa que surge de repente ao seio de meu coração? Quem vibra assim as cordas de amor? Quem? Quem com essa delicia apaixonada, mexe comigo sem pedir licença, vai chegando - nem avisa!

ARLEQUIM - Veste de uma vez essa máscara e mostra que tem poder, não fique por aí inventado sofrimento se a noite escura é a estrela mais brilhante dos corações apaixonados. Que fim de tarde é esse que deseja se Pierrô é um instante só, uma coisa de nada. Ele vem, aparece e desaparece. Vamos! O sonho morre quando desperta a realidade.

COLOMBINA - Que diabo grosseiro está aí? Estou uma fera, detesto que entrem na minha vida sem convite, detesto que me chamem sem ser conhecido! Quem está aí?

(Ouve-se demorado bater de palmas que perduram durante a fala de Colombina)

COLOMBINA - São arrulhos de pombas que dançam ao vento, delicadas asas a subir ao céu com os desejos das alturas, dançar, cantar, voar! Será o retorno do meu amado sol, minha luz arrumada que vem me buscar para o seu passeio de amor?

ARLEQUIM - Anda logo meu bem vem, a lua despe-se do vermelho pueril de sonhos de amor!

COLOMBINA - Quem diria isso? Quem deseja a nudez da lua na noite escura?

ARLEQUIM - Você é minha lua.

COLOMBINA - De quem sou? Sou eu mesma de mim. Ninguém é meu, eu sou eu de ninguém. E se alguém existir como ninguém, a este eu pertenço.

ARLEQUIM - Sou eu que te pertenço, sou realmente ninguém, nada, um nada de alguém que gosta de sua carne e de toda a arte de amor.

COLOMBINA - Um canalha? Um louco? Tarado, demônio?

ARLEQUIM - Sou a noite escura em festa, a alegria estonteante dos amantes minha cara!

COLOMBINA - Você é divertido!

ARLEQUIM - Divertida!(Colombina ri estonteante, a luz da lua neste instante deixa de ser rubra)

COLOMBINA - Onde você está?

ARLEQUIM - Estou na rede!

COLOMBINA - Na rede? Como ousa?

ARLEQUIM - Cala a boca e tira logo essa roupa!

COLOMBINA - Idiota! Saia daqui!

ARLEQUIM - Quem, meu amor?

COLOMBINA - Saia, mas antes quero ver o seu rosto, mostre-se se for capaz!

ARLEQUIM - Estou a seus pés, sou seu lençol perfumado nestas noites, sou tapete - pisa! -, sou o silencio de seu coração que bate delicado, amante, apaixonado, enlouquecido desde que a vi.

COLOMBINA - Seu bicho grosseiro, sua coisa grotesca, devia quebrar-lhe em pedaços.

ARLEQUIM - Ai, ai, ai, estou morrendo de medo, ai, vou morrer, ai que dor, socorro!

COLOMBINA - Saia daqui senão eu grito!(Arlequim começa a gritar)

ARLEQUIM - Socorro, acudam-me uma tarada, uma lambisgóia enlouquecida, uma diaba querendo transar comigo, uma doente, uma alucinada, ai, ai, socorro, ela está me comendo, ai, socorro, está me comendo pelos pés, está subindo pelas coxas, ai, socorro, socorro, ai, ela está calma agora, está bem calma, por favor, por favor, não perturbem, ai!

COLOMBINA - Idiota!

ARLEQUIM - Tansa!

COLOMBINA - Eu tansa? Qual que é meu caro, você não sabe com quem está mexendo, jogo um processo em cima de você que não sobra nada!

ARLEQUIM - Mesmo?!

COLOMBINA - Mesmo!

ARLEQUIM - Jura?

COLOMBINA - Não tenho porque jurar, não jogo o nome do bem na lata de lixo!

ARLEQUIM - Verdade?

COLOMBINA - Eu não sei quem é você, pára de me atormentar, deixa-me em paz! Não te fiz nada, saia daqui. Isso é coisa de gente que nunca amou, não sabe amar, não vive amor em sua vida! Ai estou tremendo!

ARLEQUIM - Desculpa, não quis te assustar, juro, ó, juro mesmo!

(Colombina chora)

ARLEQUIM - Não fique assim, você é muito inteligente para sofrer, vamos, procure ver os encantos da surpresa, nada é tão maravilhoso que o desconhecido em sua vida.

COLOMBINA - Tenho medo, as suas maneiras são por demais grosseiras, deve ser uma besta.

ARLEQUIM - Sou o encanto de sua vontade, os desejos escondidos, as delicadas flores arrancadas por um amante embrutecido, a fogueira dos dias que aquecem corações nas noites.

Sou eu, pura luz noturna. Amo você, sabe disso - ó, é para sempre!

COLOMBINA - Sinto em você esse risco, essa loucura, tenho vontade de te esmagar, porque mexe assim comigo?

ARLEQUIM - É assim o amor!

COLOMBINA - Não dá para confiar, tem um jeito horrível, parece mentiroso!

ARLEQUIM - Qual a verdade que deseja ouvir? Posso dizer todas as verdades, mas qual delas você vai escolher como sua? As verdades caminham no vento, e antes de chegarem ao coração passam por muitas limpezas.

COLOMBINA - Que, o quê? Verdade é verdade!(Arlequim ri)

ARLEQUIM - A verdade de meu amor é pelo menos sua fantasia, você que ainda não me viu fica a imaginar o tipo toleirão, grosseiro sou, mas que interessa isso, que interessa se a sua máscara de virtude caiu? Você coloca a sua máscara e mostra quem é!(Colombina caminha com sua máscara nas mãos)

COLOMBINA - Sou o que sou.

ARLEQUIM - Estou falando de suas paixões, de suas vontades.

COLOMBINA - Quando a sua máscara cair teremos uma lesma.

ARLEQUIM - Nas mãos delicadas de uma Colombina toda pedra bruta é esmeralda.

COLOMBINA - Esmeraldas são roubadas. Lesmas, lentas, riscando o chão com prata, ainda assim, nojentas!

ARLEQUIM - Raras, poucas encontradas nas mãos de columbinas amadas. COLOMBINA - Jamais, lesma alguma fica comigo!

ARLEQUIM - Pedra então! Pedra grotesca, fria, pontiaguda, dura, - dura em suas mãos carinhosas!

COLOMBINA - Não sei polir pedra bruta!

ARLEQUIM - Será?

COLOMBINA - Será o quê, seu machista idiota!

ARLEQUIM - Uma cadela não grita, late - esta é a diferença!

COLOMBINA - Vamos parar por aqui, dá um tempo, tenho mais que fazer de que ouvir palhaços desconhecidos. Caia fora!

ARLEQUIM - Não, por Deus, pela lua pálida neste céu sem nuvens, por tudo que ainda possa acreditar, eu sou culpado - sabe disso! Vim por amor, creia. Não me mande embora porque sofrerei.

COLOMBINA - Bem merecido sofrimento!

ARLEQUIM - Estou preso nesta rede, ai, não consigo sair, ai, ajuda, ajuda! COLOMBINA - Ridículo!

ARLEQUIM - Por favor meu bem, meu amorzinho, perdoa, por favor!

COLOMBINA - Não sou seu amorzinho, ta?

ARLEQUIM - Sou feito de tantas cores, anoitecido, ai, estou preso, preciso de sua luz para rebrilhar na noite alva, ai, estou preso, preso, socorro, a aranha me pegou, ai, enredado! Verdade! Preso, prisioneiro, aqui, ajuda, ajuda, vou gritar: ai!(Colombina aproxima-se da rede, Arlequim a puxa com violência, ela solta um grito. Cai a luz. Saem. Entra Pierrô contemplativo)

QUADRO 2 - AMOR

PIERRÔ - O amor! Amor, alegria eterna que permanece na alma de quem ama, não larga nunca mais, gruda. Direi toda a verdade, meu coração florido, perfumado - ai, minha alma grita! -, bate constante. A pombinha delicada, Colombina que dança, serpenteia, encanta, hipnotiza, enlouquece. Serpente e pomba! Minha paixão viva. Direi, direi o quanto seremos felizes, em que lugar moraremos, o que faremos juntos, os nossos planos, os filhos que virão e a casa doce à beira do lago junto ao bosque. Ai, ai, não posso deixar de pensar nos banhos que tomaremos juntos, das velas acesas, a cachoeira iluminada, a fogueira, o alimento quente em nossas bocas apaixonadas. Ai, ai, amor, o sono sagrado de anjos descansando em flocos macios de nuvens! Ai, ai, as estrelas em nossos olhos. Escreverei um poema com o meu sangue se for preciso, aprenderei voar ou cairei no fundo eterno do abismo da mais profunda solidão. Seu amor, seu encanto. Assim, assim: Colombina, minha alegria,quero dizer tantas coisas. Abrir a cabeça, encarar na real. Olha, o sol no amanhecer é uma fantasia de rei. À tarde é rubro sangue de amor, dor de despedida!

Não, não, estou sendo muito comum. Direi: Mulher olha aqui estes olhos que só conhecem estrelas. Dá um beijo nesta boca cansada de silencio. Abraça este corpo e diga que apesar de tudo ainda vale a pena! Frágil e inconstante desejo de um sonho! Um dia será lembrança, saudade de algo que jamais aconteceu. Ouça essa voz quieta que teme perturbar o vento na madrugada. Percebe Colombina esta entrega, esta loucura desenraizada - por favor!

Bate em mim suas lágrimas de mar em ondas, e derruba o penhasco da estupidez!(Faz silêncio, conta os dedos, faz-se pensativo) Acho que estou muito adiantado, é ainda cedo. Cedo demais. Coitada, é ainda madrugada, deve estar dormindo. Marquei esse encontro. Marquei com o sangue dos fins de tarde. Com sonhos delicados sobre nuvens de sangue. Ela virá? Sim, com certeza no horário marcado, não agora que é ainda cedo.(Caminha pelo palco) Deitarei nesta rede e vou navegar no barco do amor.(Pierrô deita-se e logo ronca grosseiramente e resmunga) Ai, gostosa, maravilhosa! Ai, ai, Colombina!(Entra Colombina; ainda está se arrumando)

COLOMBINA - Maldito Arlequim! Um sacana, covarde. Acabei dando pra ele. Como pude fazer isso, eu que era só de Pierrô? Ele se acha poderoso com suas maneiras arrogantes. Idiota, devia dar na cara, vai se virar vira-lata. Grande palhaço. Faz que eu saia da cama mais cedo e pra nada. Deve estar dormindo, sossegado, eu aqui a espera do safado. Ainda é cedo, vai ver que demora um pouco para limpar a cara. Porco. Ai, ontem comeu macarrão chupando e engolindo sem nem mastigar, cuspiu no chão. É o próprio diabo. Mas, sei lá, tem algo nele que me atrai. Penso em Pierrô, o quanto poderá sofrer quando descobrir que Arlequim apareceu na minha vida. Ah! Que se dane também, parece uma lesma torta, jacu e ignorante.(Caminha dançando seguindo uma musica calma de dedilhado). Preciso me arrumar, quando Arlequim chegar estarei pronta e perfumada. Ai, pobre Pierrô, será que vai ficar zangado? Um coraçãozinho mole! Falei que viria aqui antes da noite chegar, falei tanto. Quando souber que parti com Arlequim, seu coração partirá!(Colombina ouve o gemer de Pierrô na cama, ele ronca, faz “pum”) Que é isso? Esse desgraçado está aqui antes da hora? Olha que podre! Eu não suportarei. Arlequim maldito! Imagina; deitar-me com este monstro, viver uma vida ao lado desta coisa nojenta.

(Ela chora baixinho enquanto Pierrô na cama, ainda geme)

PIERRÔ - Aqui gostosinha, coisinha bonitinha, vem fungar, vem ...(Colombina fica amedrontada. Deixa cair o seu manto)

COLOMBINA - Que cara podre!(Pierrô continua com seus sonhos falados e ganidos, enquanto Colombina o xinga)

COLOMBINA - Safardana, homúnculo, traseirudo, tronha, trapo, geléia, zurro, fusco, galocha, canastra, entripa, nesfo, vulgo, ignóbil, badenga, caliuce, parvo, dinéspero, vinco, trilho, jaguara!(Colombina dá um chute no traseiro de Pierrô que salta fora da rede. Colombina sai, Pierrô junta o manto de Colombina)

PIERRÔ - Nossa! Que sonho maravilhoso! Foi tão forte o poder do amor que fui jogado pelas correntes do rio. Que coisa incrível. É o poder da mente sonhadora e apaixonada que se joga no mar das esperanças e cai na terrível tempestade. Ainda alcanço o barco que amor me leva. Vou ressonar tranqüilo em busca do perfume de minha amada Colombina. Vem, paixão!(Boceja grotescamente, deita-se se envolvendo com o manto, logo volta a roncar e mover-se. Entra Arlequim.)

QUADRO 3 - PROCURA

ARLEQUIM - Cadê a fulana? Pensei que a pegava aqui a reclamar, choramingar, exigindo isso e aquilo! Que coisa, mesmo eu, eu o calmo, o bom, o sincero, o verdadeiro amor puro não consigo conter essa estranha! Que maluco, será que esta Colombina não cumpre o chamado do amor verdadeiro - eu? Encrenca, todas iguais. Devia estar aqui se arrumando, se desculpando, sempre é assim, mudou por quê?(Arlequim imita Colombina) "Ai, ai, amor! Aquele Arlequim me faz sofrer, não sei que fazer! Ele me trata mal, e quanto mais mal me trata, mais amor bate na lata! Grosseiro, interesseiro, mas é amor verdadeiro! Ainda bem que eu o conheci, de qualquer maneira é engraçado, todo o agressivo é risonho! Ha-ha-ha Ficarei aqui depenada, sofrendo. Ele exige que eu venha, aqui estou! Grita comigo, tremo. Fala palavrões, e anda em turmas de corjas estúpidas em jogos e bares caipiras, adora o mal cheiro, curte as músicas da moda - as mais mesquinhas, horrorosas -, uma besta completa, mas eu me derreto, adoro, sou igual! Finjo educação e apatia, faço de conta que sou superior a tudo, orgulhosa, do tipo: a louca vai a compras! Encaro estranhos, transeuntes, abaixo a cabeça num instante, ameaço olhar para trás, ando a frente a trombar e fazer de conta que sou crente, boa, sã, honesta e mais que tudo, leal. Ai estou enlouquecida de mim mesma, sou tão maravilhosa! Arlequim é minha vida"(Arlequim ouve o “pum” de Pierrô, imagina que é Colombina. Ele se aproxima.) Hum, que cheiro! Essa Colombina usa uns tais perfumes! Olha, só, quem diria? Ninguém diria nada a respeito das reações fisiológicas de uma tal fulana. Vejam, que dama, que pombinha delicada!(“Pum” sonoro de Pierrô novamente) Isso é música, delicada e poética, uma doçura, finura de pessoa. Uma espécie rara de alta formosura. Quem suportaria uma coisa dessas ao lado da cama. Olho para ela, gases; digo bom dia, arrota; ofereço um doce, engole; pergunto se me ama, vomita; troca de roupa usando a mesma calça de baixo da semana passada, rasgada e suja. Uma porca! Aliás, ouvindo isso, sentindo esse cheiro, percebendo esse hálito, respeito às porcas. Mas não é isso que me interessa, um bom banho, uma tal música cantada, uma noite maravilhosa, ai, tudo passa, a sujeira passa, fica só a estúpida ignorância. O bater de qualquer coisa, um treco qualquer logo mexe o corpo e dança lasciva. Tudo é uma bobagem, amor libertinagem.(Pierrô resmunga, imita um cantar. Arlequim ri) Que voz de trovão! Será que meu dragãozinho bebeu querosene hoje?!(Ele ri debochado) O amor nada vê disso, amor passa por cima de tudo e arrasta-se na lama se for preciso. Amo essa louca com loucura. Eu a beijarei, ela despertará.(Ele se aproxima) Será divertido.

(Quando está para beijar, Pierrô tosse e move o corpo com tal força que derruba Arlequim) Ai, melhor não, outra hora será melhor.(Pierrô que estava para despertar, por fim vai se espreguiçando)

PIERRÔ - Que sonho, sonho maravilhoso, meu bem estava comigo, ai, ai, delicada Colombina, meu amor! Estava para me beijar, estava para despertar-me do sonho leve e suave em que me encontrava, ai!(Ele nota o manto em que estava enrolado) Óh! Ó! O manto amoroso de Colombina! Como não percebi isso, como me deixei navegar neste barco de sonhos!?! Infeliz Pierrô! Ela estava a meu lado, estava aqui, quem sabe pronta para me cobrir de beijos, estava, sim - partiu! Ó, ó surpresa cruel! Como é que eu não despertei! Partiu! Fiava a rede onde me debruçava, acariciava as cordas mansas que me envolviam em sonhos de vida e morte! Colombina! O seu nome está em todas as pontes onde voa no vento? Colombina! No ar caminha equilibrada no fio que emaranha, tece! Vem do céu amor, vem da terra! O que vou fazer? Correrei para aquele lado, para frente, atrás, para o outro lado, andarei o mundo à sua procura, lutarei contra dragões ferozes, irei até à lua e vigiarei os primeiros sinais do anoitecer. Sim! Está decidido, farei qualquer coisa para recuperar a minha vida, minha alegria! Pobre Colombina teve pena de mim! Com tantas amorosas palavras, com tantas fui levado ao sono profundo. Sei que me disse: dorme amor, dorme tranqüilo, logo nos veremos. Partirei!

(Pierrô sai, entra Colombina com sua máscara - ela se veste de um Arlequim feminino)

QUADRO 4 - SONHO

COLOMBINA - O masculino Arlequim! Vejo o seu semblante importunado com tudo, sua cara lasciva, suas maneiras grosseiras, sua grande estupidez, incapaz de rever o mundo perceber a seu lado a liberdade, o amor. Sua máscara esconde o menino travesso cheio de marcas, aquela força enfeitada, a vaidade, o medo da rosa, da flor da manhã. Ele se deitou nesta rede como um mandrião esfaimado, derrotado. Um animal faminto! Ele se coça, porco, feroz lobo sanguinário, risonho, feito hiena, debochado. Como é triste a letargia dos preguiçosos e soberbos que se acham! Acham?! Fazem-se de sabidos, montam-se na mulher amada para destruir tudo o que de mais puro existe. E ela o imita na sua intolerância rude, ineficaz! Amor impossível! Miserável, conseguiu, serei uma tal qual ele. Metida no poder, enveredando-me a destruir quem quer que seja, obrigando, mandando, matando se necessário, farei o papel que ele me treinou. Que dura certeza! Mulher que sou, nem Arlequim enlouquecido, nem Pierrô de sonhos de amor. Paixão de um lado, lua deitada no céu vazio de outro. Amor de Pierrô e Colombina! Amor de Arlequim e Colombina! Que escolha é essa. Daquele serei amante tantas vezes traída e traidora, do outro a mãe cuidadosa, a irmã amorosa. Nunca há certeza. O menino se divide, a mulher decide. Decisão de flores e perfumes. Mas todos roncam, todos chegam tarde na hora do encontro. Todos mentem. Todos folgados. Não se ligam à terra fértil do amor, caminham perdidos a construir e destruir. Pobres meninos que ainda se machucam para mostrar suas cicatrizes: uns para os cuidados de sua Colombina, outros para mostrar-lhe a força, o poder. Estão marcados feito escravos rudes. Marcados pela mentira. Os segredos de amor não é o leito apaixonado que dura tão pouco. Não são prazeres e carinhos. Ai abate-me o cansaço, vou à rede que teci delicadamente, teci com tantas cores - e para quem?

(Colombina deita-se na rede e dorme profundamente. Música suave à leva. Entram Arlequim de um lado e Pierrô de outro. São fragmentos de um sonho)

ARLEQUIM - Eu a vejo.

PIERRÔ - Eu a toco com a minha verdade apaixonada.

ARLEQUIM - Ela está debruçada em meus olhos e espera uma lágrima.

PIERRÔ - Dentro do meu ser, florida e protegida pelas gotas de orvalho.

ARLEQUIM - O tolo sonho e não tem nada.

PIERRÔ - Quem não sonha, não conhece o amor.

ARLEQUIM - Maior que amor sonhado, a realidade é a lâmina que corta a vida.

PIERRÔ - Antes viver o sonho da vida!

ARLEQUIM - Desperta meu bem, desperta porção viva, Sol que nunca deita.

PIERRÔ - Em meus braços repousa delicada Lua, presença viva do Sol na noite.

ARLEQUIM - Ai, linda teia vibrante, pega-me, leva-me, devora-me!

PIERRÔ - Esteja comigo, estarei contigo, dormindo, acordado no sonho de viver.

ARLEQUIM - Nada é para sempre, mesmo o mar recua diante da Lua sonhadora.

PIERRÔ - O poder da Lua, dos sonhos, arrebata o mar meu bem: Venha!

ARLEQUIM - Pega-me! Tente!

PIERRÔ - Beijo o vento, e o lírio ainda dorme em seu perfume!

ARLEQUIM - O dia já veio, o Sol está vivo e é chama!

PIERRÔ - Em sua rede estarei perdido!

ARLEQUIM - Nela serei encontrado!

PIERRÔ - Trabalhar é construir a beleza, faça a sua rede no jardim!

ARLEQUIM - Use os fios da verdade para construir a vida.

PIERRÔ - O bem da vida, meu bem, é a única verdade.

ARLEQUIM - Sou furtivo, sou muitas cores!

PIERRÔ - Ouro puro, único. Sou seu?(Arlequim e Pierrô batem suas espadas. Colombina tenta acalmá-los)

ARLEQUIM - As diferenças nós as descobrimos com sangue!

(A luta é acompanhada de música, quase uma dança. Arlequim derruba Pierrô e aponta a espada em sua garganta. Pierrô derruba Arlequim que gira e novamente luta. As espadas se perdem. Eles sacam os punhais e novamente lutam. Invertendo os papéis em cada momento de vida e morte. Os punhais se perdem. Utilizam-se das mãos, até que exaustos, desistem)

COLOMBINA - Como podem amar? A quem amam? A si mesmos? A ninguém! Acreditam no amor, na entrega, mas estão prontos para a morte. Morrer é amar? Vocês seriam capazes de me deixar somente por vocês, morreriam por si mesmos. Meus queridos, a pouco estavam morrendo - dá para entender? -, estavam deixando a vida por suas ideologias. O egoísmo não protege a vida. Eu vou pedir mansamente, vou pedir, apesar de meu infortúnio:(ela grita) Caiam fora!

(Arlequim e Pierrô vão saindo, desaparecendo do sonho de Colombina que volta a dormir)

ARLEQUIM - Seu?

PIERRÔ - Seu.(Colombina desperta. Pierrô e Arlequim saem)

COLOMBINA - De quem desperta é o amor! Esta trama de fios encadeada, esta forma conhecida. Ai, ai! Para onde foram aqueles que se deitaram em minha rede? Ai, ai! Não posso envolver ao mesmo tempo meus amores. Eu os amo, e tanto que fazem parte de mim. Sonhos de Pierrô, loucuras de Arlequim.(Colombina sai. Entram Pierrô e Arlequim, eles se vêem pela primeira vez)

QUADRO 5 - ENCONTRO

ARLEQUIM - Ora, um farsante! Não consegue ver mais nada senão o próprio umbigo.

PIERRÔ - O que vejo aparenta mais uma mosca, bisonha, que pousa em qualquer lugar só por interesse, alimenta-se, suga, e vai a outro e outro indefinidamente.

ARLEQUIM - Não sou eu que invento que amo! Sonha com a dor para sofrer. Não tenho auto-piedade, nem vivo a fingir. A verdade é muito clara, por isso o covarde fecha os olhos e vive em devaneios.

PIERRÔ - Você não sabe amar! É incapaz de doar qualquer coisa de seu ser. Vive a realidade tão feita que, incapaz de imaginar e sonhar, jamais poderá entregar-se a ela. Está na superfície, na lama dos interesses mesquinhos, das serventias, da trapaça, do roubo, do engano, burlando a lei, tomando para si os seus prazeres. A vida não é só claridade, porque mesmo na plena luz está presente a dúvida, a incerteza, a sombra que, em verdade a conduz.

ARLEQUIM - O que você prefere à Colombina senão suas mesquinharias, sua fragilidade cômica. Nada entende de luz, escuridão, noite morta, sonho de si mesmo, pequeno egoísta. Nada dou a ninguém, o mundo é de quem pegar. Não atrapalhe a vida pesadelo, volte para suas flores bestiais, retorne aos seus desejos pobres. Vai cão danado que suas palavras não resistem.

PIERRÔ - Enfim já sabe quem você é: a guerra, a morte, o eterno tomar, pegar, agarrar! A posse. Não pode amar Colombina porque não sabe a diferença entre uma mulher e um objeto. De fato, a coisa não pode conhecer. O que o faz miserável é a sua riqueza de posses, o que te faz pobre e infeliz é a sua quantidade.

ARLEQUIM - Não sou infeliz, amo tudo o que tenho porque tenho tudo o que quero! E o que tem você? Nada, e o nada não fala, cala.

PIERRÔ - O meu vazio está cheio de sua presença.

(Entra Colombina, um pouco Pierrô, um tanto Arlequim)

COLOMBINA - Quem são vocês para julgar o que quer que seja? Acham o quê? O que acham? Enquanto vivem as suas vontades, os seus gostos eu sou inteira, não sou a diferença.

(Colombina chora esganiçada, enlouquecida até um momento de quietude que é acompanhada pelos demais)

PIERRÔ - Colombina, os sonhos morrem todas as manhãs, mas feche os olhos um instante que não viverá tantas dores, não sentirá a traição e a covardia dos homens que fazem a guerra. Meu amor, as flores abrem-se também no deserto.

PIERRÔ - Eu sei meu Pierrô, sei que somos ridículos muitas vezes, mas que aprendemos a superar as nossas vergonhas e viver a vida, mesmo na miséria humana da guerra e da injustiça.

ARLEQUIM - Colombina, chega de história, a vida é para quem vive não para quem foge dela. As flores só querem sexo, querem apenas polinizar. Usam de todas as artimanhas para atrair insetos e gerar sementes. Olha meu bem, neste mundo imundo, as feras, até mesmo elas têm sentimentos reais. Fica comigo.

PIERRÔ - Por favor, ouça, o amor é uma construção eterna que cada um dos amantes presenteia com sua bondade.

(Pierrô e Arlequim saem lentamente enquanto entra música)

PIERRÔ - Perdoa a estupidez!

(Colombina fica só. Caminha pelo palco em silêncio)

QUADRO 6 - TEMPO

COLOMBINA - Quieta é a tristeza dos famintos que não podem erguer as mãos e nunca visitam os teatros. Dolorosa, a dor da ignorância que sorri complacente com a miséria. Amor: a casa e a cama. O meu carro novo, o meu vestido, a minha turma, o meu conhecimento. A minha verdade, a minha poesia, a minha vontade.(Entra Arlequim. Música)

COLOMBINA - Eu não combinei que viesse. Não falei nada, não disse que podia.(Arlequim deita-se na rede. Ela corre de um lado a outro. Ele sai da rede e dança com Colombina. O ritmo musical é acelerado. Ele sai. Ela corre à rede. Pierrô entra. Ela o atende)

COLOMBINA - Não quero ver você, o que quer aqui?

(Pierrô a leva à rede e corre de um lado a outro. Ela se levanta. Dançam. Ele sai)

COLOMBINA - Amor é assim: aparece; desaparece.

(Arlequim aparece e desaparece durante os momentos em que Colombina prepara-se para deitar na rede. Entra Arlequim com o ramalhete de flores)

QUADRO 7 - CARTA

(Arlequim entra lentamente, fingindo não querer despertar Colombina. Ela nota seu movimento. Ele coloca o ramalhete a seu lado. Vê Colombina e finge não a ver)

ARLEQUIM - Não sei o que dizer, o que pensar, o mundo é muito falso, não dá mesmo para confiar em ninguém. Deixarei essas flores aqui, lembrança de minha despedida. Prometi a Pierrô que mandaria essas flores. Adeus Colombina, nunca saberá de quem veio essas flores! Oh! Eu disse a Pierrô que tudo faria para conquistar o amor de Colombina, disse, disse sim, disse a ele: olha, olha bem Pierrô, o meu amor por Colombina é muito grande, sou capaz de deixá-la se ela amar mais você que a mim. Não quero perturbar ninguém. Fui e sou sincero. Seria duro, mas seria capaz disso. Todos me acham interesseiro, não sou. Sei bem quando a batalha está perdida. Acreditava tanto em Colombina, e agora? O que vai ser de mim? Esta carta conta tudo.(Arlequim caminha pelo palco como um ator num dramalhão) Você Pierrô, você me disse que ela, minha Colombina escreveu esta carta para você. Jura isso?! - perguntei com lágrimas nos olhos. Pierrô jurou.

(Ele ameaça jogar a carta de um lado, Colombina mexe-se tentando saber onde jogará. Move para outro, ela o segue com os olhos, com a máscara de um lado para outro. Arlequim percebe o movimento) Estou pronto a qualquer sacrifício. Amar mesmo é aceitar a perda. Colombina, estou sofrendo! Ninguém acredita em mim, só porque tenho esse jeito alegre e disponível, só porque estou pronto sempre, para o bem ou para o mal. Ela não é de confiança, infelizmente. A carta diz tudo. Achava que havia uma chance de sermos felizes. Preferiu Pierrô. Tudo acabado! Oh!(Ele se movimenta lânguido, exausto, arrasado) Dizer que eu lutaria por ela. Lutaria sim! Fingiu, como pude acreditar!

(Arlequim finge chorar. Colombina percebe tudo em silêncio)Adeus Colombina, adeus meu amor, já que prefere Pierrô fique com ele, não serei eu que vou impedir, o assunto é seu, está fechado. Ficam as flores de Pierrô. Oh! Adeus!

(Arlequim balouça o corpo como se chorasse, examina onde está Colombina, amassa e joga a carta de um impulso sobre a cabeça em direção de Colombina, sai)

COLOMBINA - Oh! Pobre Arlequim! Quanto é sincero! Que lindas flores! Pobrezinho! Eu que nunca escrevi cartas à Pierrô! Pobrezinho, deve ser um engano.(Levanta-se para pegar o papel amassado, lê) "Querido Pierrô, você é super, bem mais gostoso que Arlequim ou que sorvete de chocolate. É bem mais ligado que um carro zero km. Tenho uns lances para te dar, sei que me quer. Eu estou só te querendo. Minha vida é esse luxo: pensar em você, pensar em você, “Colombina, eu te espero hoje.” Que audácia de um Pierrô, inventar que eu escreveria uma carta desse tipo, nada a ver. Qual que é! Mentiu de frente! Mentiu na cara dura para o Arlequim! Inventou isso? Bem, se ele é capaz disso, com certeza é capaz de coisas bem piores. Safado, canalha. Fazendo-se de coitadinho, por fim um cretino. Ainda bem que descobri, ainda bem!(Entra Pierrô, feliz, sorridente)

PIERRÔ - Oi Colombina, queria falar comigo?

COLOMBINA - Depois de tudo o que fez... Não! Não tenho que te falar nada!

PIERRÔ - Arlequim me disse que você seria sincera comigo, diria o que sente. É verdade que me ama?

COLOMBINA - Como é ingênuo, quem amaria uma víbora como você que finge uma coisa e faz outra. Não passa de um mero sacana entre tantos.

PIERRÔ - Eu? O que foi que fiz, conta!

COLOMBINA - Não interessa o que fez, sei tudo!

PIERRÔ - Sabe mesmo?

COLOMBINA - Sei. Jamais poderia viver com uma pessoa fraca como você, que a qualquer momento aprontaria uma dessas comigo, e olha, juro, eu estava ligada, estava caída por você, por suas delicadas maneiras, por sua aparente bondade, estava pronta, e por fim!

PIERRÔ - Não posso negar que tenho culpa, mas tudo o que fiz foi para o seu bem.

COLOMBINA - Para o meu bem? Fazer o que fez com Arlequim!

PIERRÔ - Sinto muito, ele mesmo fez questão! Jamais imaginaria que pudesse se sentir ofendida.

COLOMBINA - Usar desse tipo de artimanha, fazendo com que o pobre Arlequim sofresse por minha causa sem razão aparente. Pobre Arlequim!

PIERRÔ - Desculpa, não foi para te enganar, juro! Você leu?(Colombina chora, esperneia, a máscara cai, atira-se no chão, levanta-se calma)

COLOMBINA - Li!

(Colombina sai)

QUADRO 8 - PAIXÃO

PIERRÔ - O que dizer? Não imaginava que dar flores a ofendesse tanto! A idéia foi de Arlequim, mandar flores e uma carta.(Arlequim vê a cena chorosa de Pierrô, entra sorrateiro) Fiz tudo, escrevi com meu próprio sangue, dei dinheiro a Arlequim para que comprasse ramos floridos de buquerque. Prometeu trazer aqui às escondidas, prometeu e trouxe, ali está! O que será que fiz de errado?(Pierrô aproxima-se das flores)

ARLEQUIM - Você contou a verdade, disse tudo, e agora não há mais novidade no seu amor!

PIERRÔ - Mas, veja bem, mandar flores, escrever cartas são coisas muito naturais, é uma tradição, juro que não foi por chantagem, ou por suborno, sei lá o quê, juro!


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