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Colombina e Seus Amores

Encontros de sonho e desejo

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Pedro Moreira Nt

Copyright, 2017 by Pedro Moreira Nt.

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Produzido por Pedro Moreira Nt, através do smashwords

Copyright, 2017 por Pedro Moreira Nt

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Colombina e seus amores: encontros de sonho e desejo

(Em cena está uma rede em formato de teia com cobertas e almofadas. A luz mancha a cena com as cores da Lua)

QUADRO 1 - LUA

(Lua rubra. Colombina apronta-se)

COLOMBINA - É tarde a noite já vem, o Sol manchou a lua neste último instante com sua triste viagem. Partir e estar só. Partir, partir. Adeus amor, adeus manhã, e vai o Sol com sua ardência rubra. Ai Pierrô, pequeno sonho inventado, tão doce e puro. Ai amor ignorante, amor tolo, abandonado. Amor crente. Sou Lua, sou Colombina, a pombinha que dança aos desejos e sonhos de amor. Ai, feito cobra me reviro em asas abandonado, feito lua que espera o amor quente de Arlequim todas as manhãs e nos fins de todos os dias, a rubra luz, o escarlate sonho de Pierrô.

(Ouve-se do mundo de fora um bater de palmas)

ARLEQUIM - Está pronta! Hei, hei, hei Colombina! Hei!

COLOMBINA - Que voz é essa que surge de repente ao seio de meu coração? Quem vibra assim as cordas de amor? Quem? Quem com essa delicia apaixonada, mexe comigo sem pedir licença, vai chegando - nem avisa!

ARLEQUIM - Veste de uma vez essa máscara e mostra que tem poder, não fique por aí inventado sofrimento se a noite escura é a estrela mais brilhante dos corações apaixonados. Que fim de tarde é esse que deseja se Pierrô é um instante só, uma coisa de nada. Ele vem, aparece e desaparece. Vamos! O sonho morre quando desperta a realidade.

COLOMBINA - Que diabo grosseiro está aí? Estou uma fera, detesto que entrem na minha vida sem convite, detesto que me chamem sem ser conhecido! Quem está aí?

(Ouve-se demorado bater de palmas que perduram durante a fala de Colombina)

COLOMBINA - São arrulhos de pombas que dançam ao vento, delicadas asas a subir ao céu com os desejos das alturas, dançar, cantar, voar! Será o retorno do meu amado sol, minha luz arrumada que vem me buscar para o seu passeio de amor?

ARLEQUIM - Anda logo meu bem vem, a lua despe-se do vermelho pueril de sonhos de amor!

COLOMBINA - Quem diria isso? Quem deseja a nudez da lua na noite escura?

ARLEQUIM - Você é minha lua.

COLOMBINA - De quem sou? Sou eu mesma de mim. Ninguém é meu, eu sou eu de ninguém. E se alguém existir como ninguém, a este eu pertenço.

ARLEQUIM - Sou eu que te pertenço, sou realmente ninguém, nada, um nada de alguém que gosta de sua carne e de toda a arte de amor.

COLOMBINA - Um canalha? Um louco? Tarado, demônio?

ARLEQUIM - Sou a noite escura em festa, a alegria estonteante dos amantes minha cara!

COLOMBINA - Você é divertido!

ARLEQUIM - Divertida!(Colombina ri estonteante, a luz da lua neste instante deixa de ser rubra)

COLOMBINA - Onde você está?

ARLEQUIM - Estou na rede!

COLOMBINA - Na rede? Como ousa?

ARLEQUIM - Cala a boca e tira logo essa roupa!

COLOMBINA - Idiota! Saia daqui!

ARLEQUIM - Quem, meu amor?

COLOMBINA - Saia, mas antes quero ver o seu rosto, mostre-se se for capaz!

ARLEQUIM - Estou a seus pés, sou seu lençol perfumado nestas noites, sou tapete - pisa! -, sou o silencio de seu coração que bate delicado, amante, apaixonado, enlouquecido desde que a vi.

COLOMBINA - Seu bicho grosseiro, sua coisa grotesca, devia quebrar-lhe em pedaços.

ARLEQUIM - Ai, ai, ai, estou morrendo de medo, ai, vou morrer, ai que dor, socorro!

COLOMBINA - Saia daqui senão eu grito!(Arlequim começa a gritar)

ARLEQUIM - Socorro, acudam-me uma tarada, uma lambisgóia enlouquecida, uma diaba querendo transar comigo, uma doente, uma alucinada, ai, ai, socorro, ela está me comendo, ai, socorro, está me comendo pelos pés, está subindo pelas coxas, ai, socorro, socorro, ai, ela está calma agora, está bem calma, por favor, por favor, não perturbem, ai!

COLOMBINA - Idiota!

ARLEQUIM - Tansa!

COLOMBINA - Eu tansa? Qual que é meu caro, você não sabe com quem está mexendo, jogo um processo em cima de você que não sobra nada!

ARLEQUIM - Mesmo?!

COLOMBINA - Mesmo!

ARLEQUIM - Jura?

COLOMBINA - Não tenho porque jurar, não jogo o nome do bem na lata de lixo!

ARLEQUIM - Verdade?

COLOMBINA - Eu não sei quem é você, pára de me atormentar, deixa-me em paz! Não te fiz nada, saia daqui. Isso é coisa de gente que nunca amou, não sabe amar, não vive amor em sua vida! Ai estou tremendo!

ARLEQUIM - Desculpa, não quis te assustar, juro, ó, juro mesmo!

(Colombina chora)

ARLEQUIM - Não fique assim, você é muito inteligente para sofrer, vamos, procure ver os encantos da surpresa, nada é tão maravilhoso que o desconhecido em sua vida.

COLOMBINA - Tenho medo, as suas maneiras são por demais grosseiras, deve ser uma besta.

ARLEQUIM - Sou o encanto de sua vontade, os desejos escondidos, as delicadas flores arrancadas por um amante embrutecido, a fogueira dos dias que aquecem corações nas noites.

Sou eu, pura luz noturna. Amo você, sabe disso - ó, é para sempre!

COLOMBINA - Sinto em você esse risco, essa loucura, tenho vontade de te esmagar, porque mexe assim comigo?

ARLEQUIM - É assim o amor!

COLOMBINA - Não dá para confiar, tem um jeito horrível, parece mentiroso!

ARLEQUIM - Qual a verdade que deseja ouvir? Posso dizer todas as verdades, mas qual delas você vai escolher como sua? As verdades caminham no vento, e antes de chegarem ao coração passam por muitas limpezas.

COLOMBINA - Que, o quê? Verdade é verdade!(Arlequim ri)

ARLEQUIM - A verdade de meu amor é pelo menos sua fantasia, você que ainda não me viu fica a imaginar o tipo toleirão, grosseiro sou, mas que interessa isso, que interessa se a sua máscara de virtude caiu? Você coloca a sua máscara e mostra quem é!(Colombina caminha com sua máscara nas mãos)

COLOMBINA - Sou o que sou.

ARLEQUIM - Estou falando de suas paixões, de suas vontades.

COLOMBINA - Quando a sua máscara cair teremos uma lesma.

ARLEQUIM - Nas mãos delicadas de uma Colombina toda pedra bruta é esmeralda.

COLOMBINA - Esmeraldas são roubadas. Lesmas, lentas, riscando o chão com prata, ainda assim, nojentas!

ARLEQUIM - Raras, poucas encontradas nas mãos de columbinas amadas. COLOMBINA - Jamais, lesma alguma fica comigo!

ARLEQUIM - Pedra então! Pedra grotesca, fria, pontiaguda, dura, - dura em suas mãos carinhosas!

COLOMBINA - Não sei polir pedra bruta!

ARLEQUIM - Será?

COLOMBINA - Será o quê, seu machista idiota!

ARLEQUIM - Uma cadela não grita, late - esta é a diferença!

COLOMBINA - Vamos parar por aqui, dá um tempo, tenho mais que fazer de que ouvir palhaços desconhecidos. Caia fora!

ARLEQUIM - Não, por Deus, pela lua pálida neste céu sem nuvens, por tudo que ainda possa acreditar, eu sou culpado - sabe disso! Vim por amor, creia. Não me mande embora porque sofrerei.

COLOMBINA - Bem merecido sofrimento!

ARLEQUIM - Estou preso nesta rede, ai, não consigo sair, ai, ajuda, ajuda! COLOMBINA - Ridículo!

ARLEQUIM - Por favor meu bem, meu amorzinho, perdoa, por favor!

COLOMBINA - Não sou seu amorzinho, ta?

ARLEQUIM - Sou feito de tantas cores, anoitecido, ai, estou preso, preciso de sua luz para rebrilhar na noite alva, ai, estou preso, preso, socorro, a aranha me pegou, ai, enredado! Verdade! Preso, prisioneiro, aqui, ajuda, ajuda, vou gritar: ai!(Colombina aproxima-se da rede, Arlequim a puxa com violência, ela solta um grito. Cai a luz. Saem. Entra Pierrô contemplativo)

QUADRO 2 - AMOR

PIERRÔ - O amor! Amor, alegria eterna que permanece na alma de quem ama, não larga nunca mais, gruda. Direi toda a verdade, meu coração florido, perfumado - ai, minha alma grita! -, bate constante. A pombinha delicada, Colombina que dança, serpenteia, encanta, hipnotiza, enlouquece. Serpente e pomba! Minha paixão viva. Direi, direi o quanto seremos felizes, em que lugar moraremos, o que faremos juntos, os nossos planos, os filhos que virão e a casa doce à beira do lago junto ao bosque. Ai, ai, não posso deixar de pensar nos banhos que tomaremos juntos, das velas acesas, a cachoeira iluminada, a fogueira, o alimento quente em nossas bocas apaixonadas. Ai, ai, amor, o sono sagrado de anjos descansando em flocos macios de nuvens! Ai, ai, as estrelas em nossos olhos. Escreverei um poema com o meu sangue se for preciso, aprenderei voar ou cairei no fundo eterno do abismo da mais profunda solidão. Seu amor, seu encanto. Assim, assim: Colombina, minha alegria,quero dizer tantas coisas. Abrir a cabeça, encarar na real. Olha, o sol no amanhecer é uma fantasia de rei. À tarde é rubro sangue de amor, dor de despedida!

Não, não, estou sendo muito comum. Direi: Mulher olha aqui estes olhos que só conhecem estrelas. Dá um beijo nesta boca cansada de silencio. Abraça este corpo e diga que apesar de tudo ainda vale a pena! Frágil e inconstante desejo de um sonho! Um dia será lembrança, saudade de algo que jamais aconteceu. Ouça essa voz quieta que teme perturbar o vento na madrugada. Percebe Colombina esta entrega, esta loucura desenraizada - por favor!

Bate em mim suas lágrimas de mar em ondas, e derruba o penhasco da estupidez!(Faz silêncio, conta os dedos, faz-se pensativo) Acho que estou muito adiantado, é ainda cedo. Cedo demais. Coitada, é ainda madrugada, deve estar dormindo. Marquei esse encontro. Marquei com o sangue dos fins de tarde. Com sonhos delicados sobre nuvens de sangue. Ela virá? Sim, com certeza no horário marcado, não agora que é ainda cedo.(Caminha pelo palco) Deitarei nesta rede e vou navegar no barco do amor.(Pierrô deita-se e logo ronca grosseiramente e resmunga) Ai, gostosa, maravilhosa! Ai, ai, Colombina!(Entra Colombina; ainda está se arrumando)

COLOMBINA - Maldito Arlequim! Um sacana, covarde. Acabei dando pra ele. Como pude fazer isso, eu que era só de Pierrô? Ele se acha poderoso com suas maneiras arrogantes. Idiota, devia dar na cara, vai se virar vira-lata. Grande palhaço. Faz que eu saia da cama mais cedo e pra nada. Deve estar dormindo, sossegado, eu aqui a espera do safado. Ainda é cedo, vai ver que demora um pouco para limpar a cara. Porco. Ai, ontem comeu macarrão chupando e engolindo sem nem mastigar, cuspiu no chão. É o próprio diabo. Mas, sei lá, tem algo nele que me atrai. Penso em Pierrô, o quanto poderá sofrer quando descobrir que Arlequim apareceu na minha vida. Ah! Que se dane também, parece uma lesma torta, jacu e ignorante.(Caminha dançando seguindo uma musica calma de dedilhado). Preciso me arrumar, quando Arlequim chegar estarei pronta e perfumada. Ai, pobre Pierrô, será que vai ficar zangado? Um coraçãozinho mole! Falei que viria aqui antes da noite chegar, falei tanto. Quando souber que parti com Arlequim, seu coração partirá!(Colombina ouve o gemer de Pierrô na cama, ele ronca, faz “pum”) Que é isso? Esse desgraçado está aqui antes da hora? Olha que podre! Eu não suportarei. Arlequim maldito! Imagina; deitar-me com este monstro, viver uma vida ao lado desta coisa nojenta.

(Ela chora baixinho enquanto Pierrô na cama, ainda geme)

PIERRÔ - Aqui gostosinha, coisinha bonitinha, vem fungar, vem ...(Colombina fica amedrontada. Deixa cair o seu manto)

COLOMBINA - Que cara podre!(Pierrô continua com seus sonhos falados e ganidos, enquanto Colombina o xinga)

COLOMBINA - Safardana, homúnculo, traseirudo, tronha, trapo, geléia, zurro, fusco, galocha, canastra, entripa, nesfo, vulgo, ignóbil, badenga, caliuce, parvo, dinéspero, vinco, trilho, jaguara!(Colombina dá um chute no traseiro de Pierrô que salta fora da rede. Colombina sai, Pierrô junta o manto de Colombina)


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